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De quase tudo que importa, não se sabe falar
De quase tudo que importa, não se sabe falar
Soco no estômago

Hoje não vou falar de mim. Vou falar da letra de um rap que recebi de um amigo que trabalha com menores infratores, escrita por um dos jovens que, atualmente, está preso.

Vou expor, com a devida autorização do autor e os devidos créditos, o outro lado do que sai nos jornais diariamente. O lado de quem está lá, na periferia, sem oportunidades, sem ídolos honestos, sem a atenção de ninguém.

O rapaz, autor desta letra, tem muito talento. Espero, com esta singela publicação de um de seus produtos, conseguir tocar o coração de alguém como o meu foi tocado. Espero que as consciências sejam reacordadas e que não parem mais de reclamar, para não deixarem que caiamos na inércia da omissão.

Espero, sinceramente, que ele, assim como os seus amigos e inimigos que vivem abandonados pelo governo e, principalmente por nós, sociedade, tenha um futuro que surpreenda positivamente as expectativas e, acima de tudo, as probabilidades.


Música: Seja bem vindo ao meu mundo
Autor: Tiago Bruno


Seja bem vindo ao meu mundo
Um lugar cabuloso e obscuro
Aqui é assim, acontece de tudo
Favela e cadeia tem algo em comum
As duas estão no coração de cada um
Eu olho o meu povo e só vejo tristeza
Criança brincando no meio dessa pobreza
Violência aqui é algo natural
Bem ali fui criado na favela estrutural
Direto eu me recordo dos tempos do lixão
Ali eu conheci e fiz vários irmãos
O tempo foi passando e a gente foi crescendo
No mundo do crime eu vi muitos se perdendo
Sem muitas escolhas e nenhuma opção
Eu também fui crescendo e me criando no mundão
Desde moleque eu sabia qual era a lei da rua
Não dá mole pra ninguém, ter um ferro na cintura,
Falava do meu pai com muito orgulho
Apesar dele estar do outro lado do muro
Já ouvi um ditado, eu acho que é certo
"A gente se espelha em quem está mais perto"
Sem ele do meu lado, para me apoiar
Precisava me manter, fui obrigado a roubar
Na favela é assim, você tem duas escolhas a fazer
A primeira é sonhar e a outra sobreviver
Você decide a escolha que é certo para você
Tive como escolha o caminho mais fácil
Ainda me lembro do meu primeiro assalto
Dinheiro no bolso, vamos as compras
Olhei para mim mesmo e o back estava na ponta
Agora eu era mais um viciado, a porra da maconha me deixava alucinado
Agora eu tava do jeito que eu queria, dinheiro pra caralho e maconha todo dia
Mas o tempo passa e eu já cansado de roubar
Parei de meter fita e comecei a traficar
Já era conhecido em toda cidade, por ter muita droga e de boa qualidade
"Fala o que tu qué? Que eu arrumo pra você!"
Cê tu dá um teco vai cheirar até morrer
A propaganda aqui é a alma do negócio
Nessa correria já tive vários sócios
A boca era o meu esconderijo
A maioria dos meus sócios viraram inimigos
Tudo por causa da porra do dinheiro
Em pouco tempo o meu sonho se tornou pesadelo
Os moleques doidos em que eu confiava
Querendo me catar, moscando na quebrada


E eu que pensava que o crime era só alegria REFRÃO
Dinheiro pra caralho e maconha todo dia


Como era de se esperar, a casa caiu
Eu fui descoberto e a boca explodiu
A polícia é cabulosa, são nossos inimigos
Foram ensinando a não ter pena de bandido
Levarão a minha droga e roubaram meu dinheiro
Mas antes disso tudo, rolou um atropelo
Coronhada na cabeça, chute nas costelas
Rodou mais um patrão que comandava a favela
Esse era o comentário que rolava no outro dia
Aqui na detenção é só tristeza e agonia,
Eu começo a lembrar de tudo o que eu fiz
Sinceramente irmão, eu não me sinto tão feliz
Sem um back para fumar, e dinheiro no bolso
Agora estou passando um verdadeiro sufoco
Eu estou aqui, no meio de cães
Hoje eu só tenho o apoio da minha mãe
Que nunca me abandona nas horas difíceis
Está me ajudando a sair do precipício
Ela me dá forças para me levantar
E quando eu sair daqui, parar de traficar
Hoje eu senti o cheiro do perigo
Bati de frente no pátio com um inimigo
Graças a Deus que não rolou nada
Se tudo der certo, volto vivo pra quebrada
Agradeço a Deus por me manter vivo
Muito obrigado por me livrar desse perigo
Eu me lembro da rua a todo momento
Trancado numa cela, vivendo no esquecimento
Toda noite aqui, a cadeia pesa
Me recordo dos momentos de alegria na favela
Sinto um aperto dentro do meu coração
Por saber que tudo o que eu vivi não passava de ilusão
Carro, dinheiro, as putas da quebrada
Só agora eu vejo que tudo deu em nada
Me sinto muito triste, meio magoado
Mas agora tudo isso faz parte do passado
A minha coroa, pega a foto e começa a chorar
Seu filho saiu fora e não sabe se vai voltar
Perdoa mãe, por te fazer sofrer
Mas eu tive que escolher
Sonhar ou sobreviver


E eu que pensava que o crime era só alegria REFRÃO
Dinheiro pra caralho e maconha todo dia


November 10, 2006 | 8:52 AM Comments  0 comments

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